Discurso de posse na cadeira n.10 da Academia de Letras da Bahia

1. Saudação à mesa.

Exmo. Sr. Prof. Carlos Ribeiro, 1º Secretário da Academia de Letras da Bahia,
Exmo. Sr. Prof. Dr. João Carlos Salles, Reitor da Universidade Federal da Bahia, minha alma mater,
Exmo. Sr. Prof. Luiz Viana Queiroz, Presidente da Seccional da Bahia da Ordem dos Advogados do Brasil,
Exmo. Sr. Prof. Dr. Rodolfo Pamplona Filho, Presidente da Academia de Letras Jurídicas da Bahia,
Exma. Sra. Prpfa. Dra. Lorena Miranda Barreiros, minha ex-aluna e orientanda, neste ato representando o Governo do Estado da Bahia;
caros confrades, caras confreiras,
autoridades, amigos, colegas e alunos,
meus pais,
meus senhores, minhas senhoras,
boa noite.

2. Agradecimentos.

Quando tomei posse na Academia de Letras Jurídicas da Bahia, há nove anos, iniciei meu discurso com uma referência a trecho de “Dom Casmurro”, em que Bento Santiago anuncia o propósito daquele livro: atar as duas pontas da sua vida, “e restaurar na velhice a adolescência”.
Esse trecho sempre me tocou mais profundamente; já o utilizei em algumas outras ocasiões, inclusive. Com o perdão das senhoras e dos senhores pela falta de criatividade, volto a ele novamente neste instante.
Bem pensadas as coisas, o uso reiterado torna essa citação um exemplo de metalinguagem: pego-me sempre tentando unir pontos de minha vida, e o pensamento de Machado acaba sendo a linha dessa interminável tessitura.
Agora, enlaço este momento com o final da minha infância, na Escola Girassol, em 1985, e me pergunto se o menino de ontem é o pai do homem de hoje.
Naquele ano, dois fatos me marcaram especialmente.
Ao lembrar deles, reforço a intuição de que sou, de fato, filho do menino que fui um dia.
O I Festival de Música da Escola Girassol (FEMEG) aconteceu em 1985. Eu estava na então quarta-série, o equivalente ao quinto ano do ensino fundamental de hoje em dia e que era o nosso último ano na Escola. Participei do Festival como cantor e compositor. Escrevi a letra de uma canção, “Pego meu carrinho”, com rimas pobres e humor nonsense. Montei um quinteto com meus melhores amigos, versão soteropolitana, infantil e algo bizarra dos “Menudos”, grupo composto por adolescentes porto-riquenhos, então em voga.
Resultado: último lugar.
O segundo fato foi a série de cinco programas apresentada pelo Globo Repórter, iniciada em 09 de maio daquele ano, com reportagens sobre a expedição do oceanógrafo francês Jacques Cousteau à Amazônia. Eu gostava muito de estudar sobre animais, tinha a coleção “Mil Bichos” da Editora Abril e guardava os cartões do chocolate Surpresa. Aqueles programas, por isso mesmo, me encantavam: peixe-boi, ariranha, boto cor de rosa, pirarucu… bichos novos no meu repertório (embora ainda hoje não saiba que diferença haverá entre uma lontra e uma ariranha e entre uma ariranha e uma lontra), todos eles personagens principais das incríveis aventuras daquele simpático senhor gaulês. Eu, aos dez anos, fã das aventuras do Sítio do Pica-pau Amarelo, fiquei maravilhado.
Procurei então meu professor Ricardo Seixas, responsável pela biblioteca da escola; pedi a ele que datilografasse, durante os meus recreios, um conto que estava elaborando, cujos personagens eram os meus colegas de sala e o cientista francês. Após vários recreios e a impressionante paciência do meu professor, terminei o conto: “Um convite especial”. Encontrei, recentemente, trechos desse meu primeiro escrito.
Voltei a lê-los, a letra da canção e os trechos do conto, trinta e dois anos depois, agora na condição de membro da Academia de Letras da Bahia.
Impressiona como ainda haja quem duvide da força de um ambiente que estimula a criatividade, o erro e a ousadia, especialmente para crianças.
Por causa disso, meu discurso não poderia começar de outro modo.
Eu preciso agradecer aos meus professores.
Em primeiro lugar, quero agradecer à minha primeira professora: minha mãe. Eu fui o filho que teve o melhor dela – nos meus primeiros seis anos, ela ainda não trabalhava; dedicava-se integralmente aos seus filhos e, como mais velho e num período fundamental da minha formação intelectual, tive minha mãe em sua plenitude. Alfabetizei-me tendo ela ao meu lado, me ajudando com os deveres de casa, comprando-me enciclopédias juvenis e exigindo de mim a sua leitura integral. Certamente não é por acaso o meu gosto pela leitura. Eu não estaria aqui hoje sem esse primeiro passo.
Em segundo lugar, quero agradecer à profa. Lúcia Martins, que me alfabetizou, e ao Prof. Ricardo Seixas, aqui presente, que perdeu muitas das suas horas de descanso, datilografando aquele pífio conto juvenil de um aluno mediano.
Em terceiro lugar, quero agradecer a meu pai. Na minha adolescência até o início da minha vida adulta, a atuação de meu pai foi decisiva, não apenas porque me legou uma biblioteca muito razoável; não apenas porque nunca se negou a comprar algum livro que eu pedia; não apenas porque, aos dezesseis anos, me deu de presente a assinatura da Folha de São Paulo, que tenho até hoje e que meu franqueou o acesso a mestres das letras como Elio Gaspari, João Ubaldo Ribeiro, Ruy Castro, Carlos Heitor Cony, Otto Lara Resende e Fernando Gabeira. É preciso agradecer a meu pai por ter sempre estado lá, à minha disposição, para ensinar sobre tudo a todo o momento.
Gostaria de agradecer, in memoriam, a Lúcia Gaspari, que me despertou o amor pela interpretação dos textos. Magali Mendes também merece o penhor da minha gratidão, porque, para além de se ter tornado minha amiga e de ter influenciado bastante o modo como vejo o mundo, possivelmente foi a professora que mais acreditou em meu potencial.
Finalmente, não posso esquecer de Paulo Furtado, professor que me iniciou na disciplina que abracei como objeto principal da minha atividade intelectual.
Eu não estaria aqui hoje sem todos eles.
A eles, o meu mais sincero e comovido agradecimento.
Mas o ingresso numa confraria de letras tão egrégia não se alcança apenas com uma boa formação intelectual. Sem a ajuda e a confiança de muitas pessoas, eu também não teria chegado aqui. Faço também questão de registrar todas elas.
Primeiramente, um agradecimento especial ao Reitor, Professor e Governador Roberto Santos: sem o seu apoio, eu não estaria aqui. Meus filhos e netos precisam saber, para meu orgulho e minha incredulidade, que me tornei confrade de Roberto Santos, tendo sido ele o propositor do meu nome.
Um agradecimento especial, também, aos meus agora confrades Edivaldo Boaventura, Luiz Antonio Cajazeira Ramos, Fernando Rocha Peres, Urânia Tourinho Peres, Yeda Pessoa de Castro, Francisco Senna e Dom Emanuel, entusiastas da minha presença nesta Academia.
Registro, ainda, um novo agradecimento ao meu mestre Paulo Furtado, agora duplamente confrade, que não apenas encampou a ideia de minha chegada à Academia, como aceitou o convite para fazer o discurso da minha recepção.
Um agradecimento in memoriam a Myriam Fraga e Geraldo Machado, que faziam questão de demonstrar simpatia pela minha vinda para a Academia.
Ainda é preciso fazer um agradecimento aos meus amigos Cristiana Santos, Antonio Menezes, Alberico Mascarenhas, Celso Castro, José Carlos Aleluia, Guilherme Bellintani, Guilherme Moura, Bruno Godinho, Luiz Viana Queiroz, Jorge Santiago Jr., Paulo Roberto Costa Lopes, Guilherme Lamego e a meu irmão Ricardo Didier, sem os quais a trilha teria sido muito mais difícil.
Finalmente, um agradecimento a Renata, cuja vida está bordada na minha, como se eu fosse o linho e ela, a linha – na lindíssima imagem de Gilberto Gil; e a Fredinho, Sofia e Antonio, a quem espero sempre servir como um bom exemplo; os quatro me lembram a todo momento a importância e a beleza das conquistas que são obtidas com as nossas dez mãos entrelaçadas.

3. Homenagem ao patrono e aos antecessores.

Feitos os agradecimentos, cabe a mim proceder à saudação do patrono e de meus antecessores na cadeira n. 10 da Academia de Letras da Bahia.
Aliás, essa benfazeja praxe cumpre, como se sabe, a função de preservar a imortalidade dos confrades e confreiras que se foram. Nesse sentido, parece ser uma simples exaltação das virtudes de nossos antepassados e uma homenagem a eles.
Para mim, no entanto, a principal função desse bom costume é outra: lembrar àquele que assume esta cadeira que gigantes lhe antecederam. Assim, fica mais fácil dimensionar adequadamente o próprio tamanho, neutralizando, ainda que em parte, a insidiosa vaidade, aquela daninha sensação de que se é indefectível, infungível e imprescindível. Funciona, enfim, como a voz do escravo no ouvido do vitorioso general romano: “memento mori, memento mori…”.
A praxe remete à fugacidade da minha existência e à pequenez da minha biografia, sobretudo quando comparada às dos que aqui chegaram antes.

3.1. José Lino dos Santos Coutinho .

O patrono desta cadeira, por exemplo, é um dos mais ilustres baianos do século XIX: José Lino dos Santos Coutinho, médico, professor, político e poeta. Nascido a 31 de março de 1784 e falecido a 24 de julho de 1836. Foi, ainda, Cavaleiro da Ordem de Cristo, Conselheiro do Imperador, sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa e médico honorário da Imperial Câmara.
Formado em Coimbra, participou da fase de preparação da Independência do Brasil, representando a Bahia, como deputado, nas Cortes de Lisboa em 1821; incorporou-se ao grupo de deputados brasileiros que abandonaram os seus trabalhos, por não concordar com as imposições feitas ao Brasil .
Retornou ao Brasil e foi, por várias vezes, eleito deputado, fazendo, inicialmente, oposição ao Imperador, embora dele se tenha tornado, em seguida, conselheiro e médico honorário. Fundou a loja maçônica do Grande Oriente, na Bahia. Como político, destacou-se pela excelente oratória, sendo apelidado de “deputado das galerias”, pelo modo como se comunicava com as massas .
Em 04 de outubro de 1826, tornou-se professor da cadeira de Patologia Externa na Escola Médico Cirúrgica da Bahia.
Após a abdicação de D. Pedro I, foi nomeado Ministro dos Negócios do Império e, logo depois, presidente da província do Rio de Janeiro, cargo que ocupou até janeiro de 1832, quando se tornou o primeiro Diretor da Faculdade de Medicina da Bahia, resultado da transformação da antiga Escola Médico Cirúrgica da Bahia, de que foi o principal idealizador . Em sua gestão criou a Biblioteca da Faculdade, até hoje uma das mais importantes do país.
Lino Coutinho era bisavô do primeiro ocupante desta cadeira, Antonio Muniz Sodré de Aragão, que o escolheu como patrono.

3.2. Antônio Muniz Sodré de Aragão.

Antônio Muniz Sodré de Aragão nasceu em Salvador no dia 13 de junho de 1881.
Jurista, professor, jornalista e político, fundador da Academia de Letras da Bahia e membro de tradicional família de intelectuais baianos, diplomou-se em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade Livre de Direito da Bahia no dia 8 de dezembro de 1903, e em 30 de março do ano seguinte inscreveu-se para concorrer à vaga de lente substituto de direito criminal na Faculdade de Direito da Bahia. Aprovado, passou a lecionar como professor substituto até 1910, quando, em 16 de novembro, foi nomeado catedrático da mesma cadeira .
Elegeu-se deputado estadual em 1909. Foi eleito deputado federal pela primeira vez para a legislatura 1912-1914, reelegendo-se sucessivamente para as legislaturas 1915-1917 e 1918-1920. Em 31 de julho de 1920 foi eleito para o Senado Federal na vaga deixada por J. J. Seabra. Reelegeu-se senador até 1927, e integrou a Comissão de Finanças do Senado. Voltou a ser eleito deputado federal para a legislatura 1930-1932.
Por dois períodos foi procurador-geral do Estado do Rio de Janeiro, além de professor catedrático da Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro.
Foi também jornalista, tendo colaborado em diversos periódicos tais como “O Tempo” e o “Diário da Bahia”, do qual foi redator e proprietário; no Rio de Janeiro, colaborou com o “Correio da Manhã”.
Autor da clássica obra “As três escolas penais”, de 1907, marco da literatura jurídica brasileira sobre o assunto, Muniz Sodré atualmente dá nome à sala 103 da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia.
Faleceu prematuramente na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, no dia 8 de junho de 1940.

3.3. Altamirando Alves da Silva Requião.

Em 1941, Altamirando Alves da Silva Requião foi eleito para esta cadeira, em sucessão a Muniz Sodré. Soteropolitano nascido a 27 de agosto de 1893, Altamirando Requião fez o curso normal em Salvador e bacharelou-se em Direito no Rio de Janeiro; foi político , jornalista, polemista , teatrólogo, professor e intelectual prolífico, autor de mais de 15 livros. Foi o primeiro presidente da Associação Baiana de Imprensa, em 1930.
Especializado em sociologia, pedagogia e história, tornou-se professor catedrático de história geral do Colégio Estadual da Bahia, professor da Faculdade de Filosofia da Bahia, catedrático de português do Ginásio Baiano de Ensino e de história do Ginásio Guanabara, no Rio de Janeiro.
Em outubro de 1934, elegeu-se deputado federal pela Bahia na legenda do Partido Social Democrático (PSD). De 1942 a 1945, na gestão do interventor federal Renato Pinto Aleixo, foi secretário do Gabinete Civil da Bahia. Ainda em dezembro de 1945, foi eleito deputado para a Assembleia Nacional Constituinte. Em 1947, foi vice-presidente da Câmara dos Deputados e tornou-se líder do Partido Social Trabalhista (PST), criado nesse mesmo ano, para o qual se transferira. Ainda exerceu mandatos de deputado federal em outras legislaturas.
Afastado da vida política, foi nomeado, em março de 1956, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, tornando-se vice-presidente desse órgão de 1959 a 1961. Nesse mesmo ano, voltou a lecionar história geral no Colégio Estadual da Bahia, em Salvador. Exerceu essa atividade até 1963, ano em que se aposentou. A partir de então, passou a dedicar-se às letras.
Em 1980, concorreu à Academia Brasileira de Letras, para a cadeira que veio a ser ocupada por José Sarney .
Faleceu em Salvador no dia 22 de outubro de 1989.

3.4. Monsenhor Gaspar Sadoc da Natividade.

Gaspar Sadoc da Natividade nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, a 20 de março de 1916, filho de José Porcino da Natividade e Esmeralda da Natividade, também naturais de Santo Amaro, ele operário, ela doméstica. Chama-se Gaspar como uma homenagem de seu pai a um dos três reis magos – interessante curiosidade histórica, quando se trata de alguém que se veio tornar um dos mais célebres párocos da história da Bahia.
Aos 10 anos terminou o ensino primário sob a orientação de uma professora leiga: Maria do Carmo Guimarães. Passou rapidamente no Ginásio Santamarense e, aos 12 anos, logo após sentir a sua vocação , entrou no Seminário, o antigo Seminário de Santa Tereza, na Rua do Sodré, antigo convento dos carmelitas descalços, hoje Museu de Arte Sacra, onde fez os cursos de Filosofia, Teologia e Direito Canônico.
Ainda seminarista, fez seu 1º sermão, em 1939, na novena de Nossa Senhora da Purificação, Santo Amaro, e ainda diácono fez o 1º sermão em missa solene presidida pela Arcebispo, em Itaparica, festa de São Lourenço, em 10 de agosto de 1941.
Foi ordenado sacerdote no dia 30 de novembro de 1941, pelo Arcebispo Dom Augusto Álvaro da Silva, em solenidade realizada na Catedral Basílica.
A 22 de fevereiro de 1942, tomou posse da sua 1ª paróquia, São Cosme e S. Damião, na Estrada da Liberdade, tornando-se o seu primeiro vigário. Nesse mesmo ano, começou a ensinar Latim no Colégio da Soledade. Após sete anos, foi transferido para ensinar Latim e História no Seminário de Itaparica.
Em 1951, foi nomeado Vigário da Paróquia de Cristo-Rei e São Judas Tadeu, onde construiu a matriz, inaugurando-a em 1960.
Neste período, foi professor de História da Filosofia, História Eclesiástica, Patologia e Apologética Científica no Seminário Maior da Bahia. Professor no Ginásio D. Macedo Costa, na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica, no Colégio Militar, na Escola Técnica Federal da Bahia, onde lecionou 25 anos e foi professor de minha sogra, Sandra Cadidé, tendo sido o responsável por apresentar-lhe o programa que permitiu a ela fazer intercâmbio nos EUA.
Além de sacerdote e professor, foi excepcional orador – para muitos, o maior orador sacro do país em seu tempo. Era um mestre das aliterações, como bem pontuou Edivaldo Boaventura . Pedro Calmon, ao comentar a oração que Gaspar Sadoc proferiu quando Eugênio Salles assumiu o arcebispado do Rio de Janeiro, em 1971, faz-lhe um rasgado e impressionante elogio:
“não esbanjava palavras; distribuía-as, com a habilidade de quem resume – e a graça de quem pinta, matizando o seu painel discreto e amplo. Tinha-se vontade de aplaudir, em trechos assim: que não é só fazer o que se manda, mas amar o que se faz” , e arremata: “era a própria eloquência de volta ao santo recinto. Com a sua sobriedade, para ser moderna, e a sua arte, para ser clássica”

Gaspar Sadoc era, como se vê, um homem de personalidade multifacetada: para os seus alunos, professor; para o grande público, orador; para a comunidade paroquial, vigário .
Em 1968, Dom Eugênio Salles, então Arcebispo Primaz, transferiu-o para a Paróquia de Nossa Senhora da Vitória, onde permaneceu até o seu falecimento. Aliás, Monsenhor Sadoc admirava muito Dom Eugênio, tendo dito, inclusive, que o fato de ter trabalhado por sete anos com ele era causa de grande felicidade quando se lembrava do seu passado ; coube ao Padre Sadoc pronunciar o Te Deum, na Igreja de Sé, quando Dom Eugênio recebeu o chapéu cardinalício.
Na Paróquia da Vitória, onde se estabeleceu por décadas e se tornou a sua principal referência, incentivou o apostolado em favor dos mais carentes, colocando uma comunidade economicamente rica a serviço deles; havia assistência médico-dentária funcionando ao lado da igreja e duas creches; uma, no Campo Grande, e outra, na Rua da Flórida.
Foi durante esse período que iniciou o movimento “Encontro de Casais com Cristo”, que se disseminou por todo o Estado da Bahia e pelo Brasil. Com o objetivo de obter recursos para financiar obras assistenciais, idealizou a Feira da Fraternidade, que se tornou uma tradição no calendário de eventos de Salvador, contando com total apoio dos moradores da Vitória e de bairros vizinhos.
Foi, por décadas, desde 1946, o responsável pelo sermão da procissão de Corpus Christi em nossa Cidade Alta . Em sua longeva vida, aliás, proferiu mais de 3000 sermões.
Eleito em 7 de março de 1990, tomou posse nesta Academia a 16 de outubro do mesmo ano, sendo saudado por Thales de Azevedo.
Após cem anos de vida e setenta e cinco anos de sacerdócio, faleceu em 22 de setembro de 2016.

4. Sobre o magistério: encerramento.

Em 17 de agosto de 2017, fui eleito para assumir a cadeira n. 10, em sucessão ao Monsenhor Gaspar Sadoc. Por uma dessas ironias da vida, que, tendo acontecido na Bahia ganha ainda outro significado, temos um professor ateu sucedendo a um sacerdote professor.
Nesse mesmo dia, o sítio desta Academia na rede mundial de computadores divulgava a notícia de que o “advogado” Fredie Didier Jr. havia sido eleito. A notícia, tal como apresentada, me causou certo estranhamento, não posso negar, embora evidentemente estivesse correta. Sou advogado há quase vinte anos e, além de me orgulhar dessa profissão, nem consigo me ver em outra.
Certamente, a referência à condição de advogado foi uma metonímia para uma outra minha condição: a de autor de obras de ciência jurídica; foi uma maneira, por assim dizer, de referir à minha condição de jurista. Sendo assim, a eleição acabava sendo um tributo à tradição desta Casa, que, desde a sua fundação, há cem anos, possui juristas entre os seus acadêmicos. A quase totalidade do melhor do pensamento jurídico baiano é composta por imortais: Ruy Barbosa, Muniz Sodré, Bernardino José de Souza, Eduardo Espínola, Almachio Diniz, Virgílio de Lemos, Filinto Bastos, Aloysio de Carvalho Filho, Machado Neto, Augusto Alexandre Machado, Adalício Nogueira, Nelson Sampaio, Orlando Gomes, Josaphat Marinho, Carlos Ribeiro, Nestor Duarte, Rubem Nogueira, Gerson Pereira dos Santos, Ary Guimarães e Paulo Furtado. Aliás, muitos de nossos confrades são egressos da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, como Edivaldo Boaventura, Samuel Celestino, Cid Teixeira, Florisvaldo Mattos, Fernando Rocha Peres e Joaci Góes. Finalmente, ainda há Nelson Cerqueira, que, embora não tenha formação na área jurídica, é meu colega há muitos anos no Programa de Pós-graduação em Direito da UFBA.
Então qual seria a causa desse estranhamento?
Pensei bem e cheguei a uma hipótese: é provável que eu me veja mais como um professor.
Tenho a forte impressão de que foi a condição de professor há quase vinte anos que me trouxe aqui. Certamente não é por acaso que tantos de nós, quase todos nós, meus confrades e minhas confreiras, somos professores.
Esta Casa sempre foi ocupada por inúmeros professores e professoras.
O magistério é, seguramente, a dimensão mais significativa da minha existência e é bem provável que o íntimo desejo de fazer parte desta Academia decorra da percepção de que por aqui estão ou estiveram os melhores professores e professoras da Bahia – estar ao lado deles e delas parece a mim a chancela definitiva de que sou um bom professor.
Talvez lá no fundo, e de modo inconsciente, o que verdadeiramente acaricie a minha vaidade seja o reconhecimento de que sou um bom professor.
Calmon de Passos, o maior professor de Direito que eu tive, ao encerrar o seu discurso como paraninfo da minha turma, ordenou a todos nós, seus paraninfados:
“Caminhem para o futuro e levem-me com vocês.
Não meu corpo, tão frágil, tão transitório e tão precário, mas o que fui em espírito e verdade para vocês, se é que o fui.
Se assim o fizerem, estarei presente também no amanhã de vocês, porque é neste permanecer do algo que fomos em alguém que continua sendo que se realiza o insopitado desejo humano da perenidade.
Este sobreviver tem um nome – chama-se imortalidade”.

É como eu disse: estou aqui por causa dos meus professores.
Todos eles permanecem em mim.
Somente terei sido um bom professor, e com isso satisfazer o mais recôndito dos meus quereres, se me tornar para meus alunos aquilo que meus professores foram para mim.
Se isso acontecer, aí, sim, e finalmente, terei alcançado a imortalidade.
Muito obrigado.

Salvador, Bahia, Palacete Góes Calmon, sede da Academia de Letras da Bahia, em 30 de novembro de 2017.

Fredie Didier Jr.